Postado em 17-12-2009 às 10:31
O que é isso, companheira?
Paulo Moutinho, IPAM
Após os avanços demonstrados pelo Brasil na questão climática, incluído aí o estabelecimento da meta nacional de redução de emissões de carbono, a delegação brasileira presente aqui em Copenhagen parece não se dar conta do potencial que tem para mudar o jogo das negociações de clima. A mensagem brasileira dos últimos dois dias, transmitida pela chefe de delegação, a ministra Dilma Rousseff, nos remete ao velho discurso de que o Brasil não “sacrificará” seu “desenvolvimento” estabelecendo meta, mas sim um “compromisso” voluntário de redução de emissões. Ora, qual a diferença?
Num mundo em aquecimento e sob uma urgência de redução rápida de emissões, espera-se que tal meta seja, no mínimo, cumprida, se não, excedida. E mais: o governo brasileiro parece se esconder atrás da palavra “voluntária”. Esquece-se de que, ao lançar a meta, fez uma promessa ao povo brasileiro e, de certa forma, ao mundo. É incrível, mas a falsa tese de que não será possível crescer economicamente no futuro a não ser através do atual modelo de desenvolvimento que demanda a queima de combustíveis e a derrubada de florestas ainda impere entre nossos governantes.
Eles se esquecem de que o crescimento econômico de qualquer país, num mundo mais aquecido, se dará nos países que tomarem as decisões corretas em prol da conservação de florestas, desenvolvimento tecnológico de energias limpas e renováveis e da construção de um mercado de serviços ambientais que poderá dar valor ao que hoje é desprezado.
O Brasil tem tudo para fazer isto. No entanto, a mensagem ainda continua na linha antiga. Tudo “voluntário” (se der, a gente faz, se não der, desculpa aí, tá?) para os países em desenvolvimento e cobrar mais e mais dos países ricos. Não que estes últimos não devam pagar boa parte da conta. Muito pelo contrário, devem sim, pois foram estes que historicamente mais “sujaram” a atmosfera. Mas, neste estágio das negociações, gestos, mesmo que simbólicos de países como o Brasil, podem fazer toda a diferença.
Tínhamos, na verdade, que anunciar que vamos fazer tudo para reduzir nossas emissões, que nossas promessas neste sentido serão cumpridas e que aqueles que quiserem ajudar, sejam eles desenvolvidos ou não, serão bem vindos nesta luta. Continuamos, contudo, na velha defensiva, passando o “pires” entre os países ricos para angariar recursos, recursos estes que deveriam ir para países que precisam muito mais de ajuda do que nós, brasileiros.
No entanto, isto não significa que o Brasil não deva receber recursos internacionais para lutar contra a mudança climática. Pelo contrário, há potencialmente muito recurso no futuro próximo que poderia ser alavancado para promover a proteção das florestas, grandes armazéns de carbono e a redução das emissões de carbono oriundas do desmatamento, o que vem sendo identificado nesta COP como REDD (Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação florestal). Neste caso, o que estaríamos solicitando seria uma compensação pela opção que a sociedade brasileira, mal ou bem já fez (e pode fazer muito mais), por exemplo, pela conservação de suas florestas, especialmente as amazônicas.
Neste caso, não importa se o governo brasileiro tem ou não muito recurso interno. O que vale é que há um esforço importante de redução (agora com metas) que deve ser, primeiro, reconhecido e, quiçá, compensado. É claro que para isto acontecer, algum tipo de mercado de carbono para REDD deveria ser estabelecido.
O fato é que o Brasil está perdendo uma chance única de mudar o jogo das negociações e favorecer avanços no acordo global para o clima. Quem sabe com a chegada do presidente Lula este retrocesso momentâneo não seja reafirmado. Oremos!
- Autor: Paulo Moutinho
- Assuntos: COP 15

